quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ELOGIO À MORTE


I - VIDA? (ZONA DE CONFORTO)

Crescer, depois de nascer, aprender
a segurança, o dinheiro, o sucesso
família, filhos, netos e depois... nada.
Me dêem o controle
status, um nome, o prazer imediato
que depois vem o nada.

Um sentido para isso eu compro na esquina,
Um sentido me dá o preconceito, o dogma
a sensação de pureza
a preguiça de mim e da vida
que depois vem o Nada
e a vida e o depois às vezes se misturam.

Por Deus, que eu nem sei se existe
me dêem o poder
para que eu não precise buscar um sentido
que depois vem o nada
a morte do sonho que não ousou sonhar
sua eternidade.

“A vida começa onde termina a sua zona de conforto.”
Neale D. Walsh



II – DÈJÁ VU? (ARCHOTES)

Eu vi uma cidade da Idade Média
com suas casas de pedra
e ruas estreitas.
Eu vi um povo sofrido
marchando para a morte
com archotes na mão.

Eu vi um burgo e um senhor
que comia numa mesa farta de impostos injustos.
Eu vi um camponês chorando a dor
de não comer o que plantou
e gente faminta nos becos gelados
morrendo de frio e de abandono.

Eu vi a ignorância parir a heresia
e a heresia, a fogueira
e vi pessoas gritando e vibrando
enquanto o fogo queimava
o que a sua ignorância
não compreendia.

E vi a cidade,
suas ruas, seu povo
suas lutas, sua fome
sua ignorância e intolerância
suas fogueiras, seus gritos...
e eu morrendo mais uma vez.



III – FIM? (SENHORA)

Senhora de tudo que vive
seu rosto já ouvi medonho
seus olhos, incandescentes
seu riso, macabro
seu toque, gelado
sua morada, sinistra.

Quando criança, era o medo do escuro
mas nunca te via.

Senhora da Imaginação
dos que vivem e sonham eternamente viver
cresci e te encontrei na Filosofia
metáfora paradoxal da vida
impessoal discurso, abstrato retrato do medo
que toda criança tem do escuro.

Mas te ver não podia.

Senhora dos Quatro Elementos
amadureci e te vi
na peregrinação do dia atrás da noite
na mudança das estações
no milagre da semente
nas transformações do meu corpo.

E aguardo o dia
quando se cumprir o ciclo
e se expandirem as dimensões
e eu possa te ver inteira
por todos os sentidos
Senhora da Vida, Morte.




SOBRE A MORTE – Pedro Bial
Assisti a algumas imagens do velório do Bussunda, quando os colegas do Casseta & Planeta deram seus depoimentos.

Parecia que a qualquer instante iria estourar uma piada.
Estava tudo sério demais, faltava a esculhambação, a zombaria, a desestruturação da cena.

Mas nada acontecia ali de risível, era só dor e perplexidade, que é mesmo o que a morte causa em todos os que ficam.

A verdade é que não havia nada a acrescentar no roteiro: a morte, por si só, é uma piada pronta. Morrer é ridículo.

Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da
tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente?

Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer.
A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu.
Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente.

De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis.

Qual é? Morrer é um cliche.

Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em

casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira.

Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas
cuido eu.

Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e
morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito.
Isso é para ser levado a sério?

Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo.
Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz.

Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas.

Só que esta não tem graça.


OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO - Carlos Drummond de AndradeChega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


MORRO – Cora Coralina
Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.

FRASES E PENSAMENTOS SOBRE A MORTE

“A vida é uma grande surpresa, e eu não vejo porquê a morte não seria uma surpresa maior ainda”. Vladimir Nabokov

“A vida é uma constante aproximação da morte; portanto, a vida só pode ser vista como felicidade quando a morte não parecer um mal”. Conde Leon Nikolaievitch Tolstoi

“O grande drama da vida não é morrer, é não viver”. Marco Aurélio Dias da Silva

“Quanto mais se transforma a vida do domínio material para o espiritual, menos se passa a temer a morte. O indivíduo que vive uma vida verdadeiramente espiritual não tem medo da morte”. Leon N. Tolstoi

“Nossa sociedade vive o medo da morte de uma maneira obsessiva e quer dar a tudo um tom de perenidade que as coisas não têm”. Claudio Nucci

“Aprende a viver e saberás morrer bem”. Confúcio

“Morrer é o apagar da lâmpada ao nascer do dia, e não o apagar do sol”. Rabindranath Tagore

“Morrer é mudar de corpo como os atores mudam de roupa”. Plotino

“Ninguém pode fugir ao amor e à morte”. Publilius Syrus

“Vistas do universo, mesmo as coisas aparentemente diferentes são iguais. O mesmo acontece com a vida e a morte”. Kazuo Ohno

“Quando estamos vivos, a vida é tudo para nós, como a morte é tudo para os mortos. Enquanto estiver vivo, concentre-se em viver. Assim não temerá a morte”.Tsai Chih Chung

"A morte não é nossa perda maior. Nossa perda maior é o que morre dentro de nós enquanto vivemos”. Norman Cousins, editor.

“Apesar de estarmos sempre nos queixando de que nossos dias são poucos, agimos como se eles nunca tivessem fim”. Sêneca

"Quando nasceste, todos riam, e só tu choravas. Viva de tal modo que, quando morreres, todos chorem, só tu sorrias". – Confúcio

“Se você nunca nascer de novo, desejará nunca ter nascido”. Derek Cleave

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