
A chuva cai, acariciante e preguiçosa...
Penso em quantos céus azulam e enegrecem entre você e eu.
Mudam as estações, folhas caem no meu solo fértil
de tudo que não sabe, mas gera e alimenta.
Mudam os ventos que sopram você em mim
e agitam as águas rasas e as águas profundas
da condição de ilha que me prende a você
e me desprende de mim definitivamente.
Agora a areia da praia sou eu
passiva, carente do mar que rasga violento e manso
a alegria e a dor de ser areia somente
jamais gaivota que conhece o mar de todos os portos.
Vem a seca, fome, sede e tudo de você em mim
é o cacto que machuca e vaza água pelos espinhos
- que não posso beber -
tamanha a sequidão do deserto em mim.
Sua imagem ondeia em oásis e horizontes perdidos de nada
o sol castiga, o calor que vem de dentro
e é só você agora,
meu dentro que vem de fora.
E novamente vem a chuva,
agora tempestade violenta
fertiliza do que não era de você em mim
muito mais do que um dia sonhei plantar.
Que a primavera é a estação dos amantes
mas é a morte do outono
que ensina os segredos do jardim
para o beija-flor.

AMOR BASTANTE – Paulo Leminski
Quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

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